Entrevista com o escalador Paulo Montanha

Paulo Montanha, conhecido também como PH Santos, é um montanhista Paranaense que atualmente reside no Amazonas. Ele é guia/instrutor de escalada certificado pela Aguiperj, foi sócio fundador do Centro Excursionista Goiano e do Grupo de Montanhismo Tubaronese em Santa Catarina, é autor do Catálogo de Escaladas de Tubarão e Região e também um dos precursores do desenvolvimento da escalada no norte do Brasil. Confira a seguir nossa entrevista com o Paulo, onde em um papo muito interessante, ele nos contou sobre sua trajetória no esporte, escalada urbana, montanhismo no Amazonas e Roraima e muito mais.


Primeiramente nos fale um pouco sobre você, quem é Paulo Montanha, natural de onde, onde vive atualmente e o que faz?

"Sou nascido em Curitiba - PR, tenho 50 anos, atualmente estou residindo em Manaus e trabalho na área de energia."


Como e onde surgiu a paixão pela escalada?

"Com onze anos, em 1982, eu comecei a frequentar o Marumbi com o meu tio. Fizemos muitas trilhas lá na região e logo em seguida eu comecei a frequentar também o Morro do Anhangava, Morro do Canal, trilha do Itupava entre outros. Na primeira vez que fui para o Morro do Anhangava em 1985 tinha um pessoal escalando e foi a partir daí que tudo começou no início de 1986. Comecei a escalar inicialmente com os amigos do bairro e foi nessa época que conheci o Chiquinho, André Minhoca, Bito, Nativo e Júlio que era a galera que frequentava o Anhangava."

Apesar de existirem vários setores de escalada no Brasil bem definidos, ainda temos muitos locais a serem explorados e conquistados, na sua opinião onde se encontram as melhores formações rochosas para escalar em nosso país e qual é a de sua preferência?

"Na minha opinião o Brasil tem muitos lugares maravilhosos. Para big wall, a Serra dos Órgãos no RJ, para tradicionais a lista é grande (Salinas – RJ, Petrópolis-RJ, Teresópolis-RJ, Espirito Santo (diversos lugares – Pancas, Laranja da Terra, Águia Branca, Cachoeiro do Itapemirim,), Minas Gerais eu nem vou citar porque seria muito longo, mas é um Estado Paraíso para a escalada em rocha. Serra Geral catarinense, particularmente a sua porção Sul (basalto e arenito de qualidade); Nordeste (também não vou citar detalhadamente, pois a lista seria grande) e claro o nosso Estado do Paraná com o tradicionalíssimo Marumbi entre outros. Para boulders eu acho espetacular Cocalzinho em GO, a área ao redor do município de Tubarão em SC e região Sul do Estado de Roraima."

Nós ouvimos falar de você pela primeira vez através do Saulo Balieiro, ele havia realizado um post onde estava escalando em um viaduto e logo perguntamos para ele onde era o local, ficamos surpresos da localidade e logo perguntamos a ele quem tinha dado inicio, e ele disse com todo orgulho que tinha sido o “Paulo Montanha”, nos conte como foi introduzir a escalada em Manaus e como surgiu a ideia de escalar no viaduto?

"Manaus oferece poucas opções de escalada. Além dos muros indoors que existem, aproveitar as possibilidades que temos em pontes, viadutos e outras obras de arte são muito interessantes para um bom treinamento. Assim, surgiu a ideia de achar lugares que pudessem dar essa condição. Hoje em Manaus temos cerca de 8 diferentes pontos em que a galera da escalada treina."

Como esta sendo desenvolvida a escalada no norte do país (Amazonas e Roraima) e onde são os picos de escalada mais próximos de Manaus?

"Foi difícil no inicio, cheguei bem no inicio de 2011 e quando eu cheguei na região não havia nenhuma via de escalada, havia um local de boulders onde a galera de Brasília, São Paulo e do Rio de Janeiro que vem para Manaus estudar na UFAM (Universidade Federal do Amazonas) nas áreas de Geologia, Biologia e Engenharia Florestal começaram a fazer um muro indoor e conheceram um local no município de Presidente Figueiredo que é a cidade onde tem a maior quantidade de points de escalada da região. Antes da minha vinda para a cidade de Manaus eu estava morando no Rio e quando eu cheguei foi até de certa maneira um pouco frustrante porque em Manaus tem muito pouca rocha, quando o Rio Negro fica com seu nível baixo aparece formações de arenito que rola até fazer uma escalada em estilo boulder, mas é durante um período do ano e é limitado. Foi então que eu fui atrás conheci esse pessoal e comecei a explorar essa região do Município de Presidente Figueiredo que fica a cerca de 100 km da cidade de Manaus, logo a gente foi encontrando os points foi conquistando as primeiras vias, fui ensinando dando cursos para o pessoal aqui da região onde os primeiros amazonenses e manauaras que começaram a escalar em rocha foi com a gente e paralelamente em Manuas eu fui atrás para poder aumentar a quantidade de muros e de locais na cidade para escalar e desenvolver também a escalada Urbana. Os anos foram se passando e consegui colocar mais pessoas para praticar a escalada e descobri outros locais. Em 2014 começamos ir para Roraima onde abri bastante vias de escalada no Estado, tirando o Monte Roraima que já é clássico onde tem vias de BigWall e tradicionais praticamente o restante das vias abertas no Estado de Roraima foi eu e o pessoal de Manaus que explorou, conheceu e desenvolveu os locais hoje na verdade no estado do Amazonas e em Roraima nos disponibilizamos de 19 locais diferentes com setores de vias e boulders que proporcionam a escalada, 10 anos após a nossa chegada nós temos mais ou menos um total de 140 vias de escalada nos dois estados e mais de 250 boulders, foi um trabalho gradativo mais ainda temos muita coisa para conhecer e explorar. O Estado do Amazonas tem serras muito bonitas o sul de Roraima também, mas são de difícil acesso padrão expedição demorando alguns dias para chegar na base e mais alguns dias para poder escalar e fora a volta tornando uma grande aventura no meio da selva."

A escalada é tida pela maioria de seus praticantes como um estilo de vida o qual traz muitos benefícios para a saúde e também no desenvolvimento sócio cultural de uma região, o que é a escalada para você e qual seu maior sonho para a escalada em Manaus?

"Para mim a escalada sempre foi um estilo de vida é uma filosofia, os amigos mais próximos posso dizer que foram oriundos do montanhismo da escalada, a gente tem praticamente pessoas muito próximas e conhecidas pelo Brasil inteiro, tive a oportunidade de morar em vários Estados brasileiro como em Santa Catarina, Paraná, sul de Minas Gerais, Goias, Rio de Janeiro agora aqui em Manaus sendo assim acabei conhecendo muita gente e eu posso dizer que existe muita gente boa e legal no montanhismo e na escalada brasileira e para mim tudo isso fez que se tornasse um estilo de vida e uma filosofia onde você esta com colegas em um local e esquece de tudo, esquece das dificuldades, das contas que você tem que pagar se tornando uma limpeza muito boa que você faz na sua cabeça trazendo muita paz e sossego eu gosto muito disso tudo. Com relação a sonho para a região de Manaus é ver o pessoal cada vez mais interessados na escalada, hoje a gente tem ginásio com muro indoor que abre de segunda a sábado onde estamos conseguindo inserir muita gente daqui da região que passa a conhecer o esporte, o montanhismo e a gente acaba divulgando não como um esporte como eu já disse como uma filosofia de vida, o interesse é que possamos ver as pessoas apreendendo de maneira correta e que tenham esse carinho e essa paixão que de nós temos com relação ao montanhismo e a escalada."

Voltando a falar da Escalada Urbana você vê potencial para ser praticado em outros locais da cidade de Manaus e região, qual a sua opinião a respeito?

"O potencial da escalada urbana aqui em Manaus é bem grande a cidade tem mais de 2,2 milhões de habitantes é do tamanho de Curitiba-PR e tem muita coisa a verdade é que nós não damos conta de explorar todos os locais, porque quando da um tempinho a gente vai para a rocha também, enfim tem bastante coisa. O problema que eu vejo é que a gente precisa melhorar a conscientização em diferentes esferas do poder público, veja na Europa como você citou na pergunta número 9 a gente conhece e sabe de vários locais, como tem em Barcelona na Holanda da para citar vários locais que tem apoio, apoio das prefeituras, apoio do poder público e aqui no Brasil a gente tem muito que avançar ainda. Aqui em Manaus a gente já tentou contato com a prefeitura para poder utilizar espaços públicos e é difícil a aproximação não é fácil se você não conhecer alguém lá dentro fica muito difícil e a gente vem tendo essa dificuldade, mas o pessoal não desistiu, o bom é que com a entrada de pessoas nascidas aqui em Manaus o pessoal tem um relacionamento melhor e aos poucos esta havendo um progresso, então é muito legal essa ideia de procurar expandir de forma correta mas não é fácil, tem alguns obstáculos e no meu ponto de vista é o conhecimento pelas pessoas e o apoio nos temos muito pouco apoio na escalada, não da nem para comparar o apoio no Brasil que existe para com o futebol e um ou outro esporte e o restante fica na dificuldade na viração de cada um."

Na Europa a Escalada Urbana é muito difundida onde é realizado muitos festivais em vários países, o que você acha desse tipo de festivais onde a escalada é o foco mesmo sendo praticado em qualquer espaço da cidade, como em muros, casas antigas, praças, monumentos e em alguns lugares eles mesclam com outras atividades como a escalada em rocha?

"Com relação a festivais eu acho espetacular, toda oportunidade que tiver para reunir a galera para trocar informações e conhecimentos e claro obviamente para escalar é sensacional, eu tive a oportunidade de participar de vários festivais, quando eu morei em Goiânia no estado de Goiás realizei alguns festivais e muitas competições em Curitiba também realizei, participei em muitos encontros no sul de Santa Catarina de escalada e montanhismo e aqui em Manaus a gente já fez quatro festivais agora em 2021 estaremos realizando o quinto festival de escalada e montanhismo onde a gente tem conseguido reunir o pessoal. Nos dois primeiros anos realizamos os encontros com o pessoal do slackline e nos dois últimos anos fizemos de forma autônoma, somente com o pessoal da escalada e isso é muito interessante ajudando a agregar e a divulgar as atividades de escalada e montanhismo."

Nesse momento de pandemia como você tem realizado suas atividades de escalada?

"Com relação a pandemia infelizmente ela vem atrapalhando praticamente tudo em nossa sociedade, o muro ficou fechado por alguns meses por conta do louckdow e sendo assim o pessoal tem feito treinos e algumas escalada de maneira isolada o que eu fiz foi de forma solitária ou com a minha esposa, as oportunidades de continuar os treinamentos e não parar foi isso de forma solitária ou com minha esposa, porque no ápice da pandemia nos momentos mais críticos não tinha como estar com outras pessoas agora que em Manaus melhorou já houve abertura as academias os outros estabelecimentos voltaram a funcionar e no muro o pessoal tem mantido o distanciamento e tem escalado com máscara a gente tem que se adaptar e eu acho que isso é necessário para que a gente possa mitigar o máximo que poder."

Qual recado que você deixa para quem esta começando a escalar?

"Para quem esta começando não se importar com graduação não fique com coisas na cabeça como se estivesse se cobrando, procure fazer de forma que o montanhismo e a escalada de prazer, que possa fazer com que você relaxe que você saia e entre em outra dimensão em uma outra “vibe” isso é o que eu acho que é o mais importante, porque as vezes eu vejo muita gente começando aqui e são pessoas que ficam com aquela gana de grau com pensamento que tem que escalar uma graduação alta eu tenho que ficar forte, claro isso é legal é de cada um mais nesse contexto é importante também você ter o conhecimento técnico, se você sai do boulder e vai para uma linha é de fazer vias esportivas, tradicional, big wall ou para alta montanha ( escalada alpina) você tem que ter conhecimento técnico isso com certeza é mais importante do que graduação, mas para mim o que esta acima de tudo é a filosofia ter a noção de que essa atividade me conecta com a natureza, me conecta com uma força maior que me traz paz, me traz sossego e me traz uma conexão muito especial fora dessa sociedade difícil em que a gente vive uma sociedade com valores distorcidos e muitas vezes cruéis e a gente tem que procurar viver da forma mais saudável possível e para mim saúde significa você estar justamente em conexão com aquilo que gostamos de fazer então o recado para a galera que vai começar é esse, comece sem se cobrar, sem pensar só em grau e sim pense na sua capacitação técnica e tente fazer que a escalada num todo seja um prazer para você."


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