Entrevista com o escalador Flávio Cantéli

Flávio "Juca" Cantéli, escalador paranaense criador do ginásio Campo Base em Curitiba-PR, com certeza é um dos grandes nomes da escalada brasileira. Tem em sua bagagem diversos títulos e participações em competições, além de um vasto portfólio de linhas abertas e FA's (primeira ascensão). Na entrevista a seguir, Juca nos conta um pouco mais sobre sua trajetória na escalada em rocha, de competição e urbana, além de compartilhar conosco suas inspiradoras experiências.


Falando um pouco sobre você, quem é Flávio Cantéli, onde nasceu e o que faz atualmente?


"Nasci em 10 de janeiro de 1971. Sou o caçula dos quatro filhos de meus pais. Sempre pratiquei esportes e me dediquei a alguns com mais ênfase, mas quando escalei a primeira vez já entendi que era isso, me identifiquei imediatamente. Atualmente trabalho com manutenção residencial e comercial."


Como foi que você conheceu a escalada, no início houve algum tipo de barreira ?


"Em 1988 conheci na escola um amigo que me convidou e em certa vez deu certo. Junho de 1988 fui para o Anhangava e fiz algumas vias de segundo, claro. Mas apesar do medo fui tomado por aquilo. Rapidamente vendi minha guitarra e comprei uma sapatilha usada, cadeirinha e saco de magnésio. Abençoado, caí no meio dos melhores escaladores da época e isso acelerou bastante a minha evolução."

Foto: Reforma e ampliação de um ginásio em Garopaba. Abertura dos boulders do ranking Catarinense 2018.


Quando você iniciou na escalada, no Brasil não havia muitas opções de equipamentos como nos dias de hoje, como era feita a aquisição dos equipamentos e o que era mais difícil ter na época ?


"O mais difícil eram as ferragens em geral. As cordas também custavam um absurdo. O Paraná é referência na confecção de equipamentos de montanha, em 88 já tinha Snake, Montblanc, Alto Estilo, Acampar entre outras. Isso dava abertura para compra e apoio a atletas em equipamentos, mochilas, sapatilha e praticamente tudo, fora corda e mosquetões em geral (Esses somente trazendo de fora). Mas já em 1991 era possível encontrar de tudo nas lojas do ramo."


Sabemos que você era um dos melhores escaladores da sua época no Brasil, como que você realizava seus treinamentos ?


"Existem duas formas de chegar a um nível Hard. Com muito treino ou ser feito para aquilo, por osmose (risos). Nunca fui dos mais disciplinados, mas em certa época participei de cursos de técnicas e treinamentos com franceses e americanos aqui em Curitiba e em São Paulo. Mas sempre fui do campusboard, fingerboard, elástico e bola de fisioterapia. Longas sessões de boulder com outros escaladores e acompanhamento físico de profissionais que escalavam, educador físico e fisioterapeuta, também fases de exercícios compensatórios em academia."



"Depois de 32 anos vivendo a escalada, entendi que estar bem consigo mesmo é mais importante do que estar fisicamente trabalhado. Sim, indispensável cuidar da máquina, mas se sua mente está ocupada com o dever de escalar bem, de vencer, e provar a terceiros o quanto é capaz, fica pouco espaço para relaxar e sentir. A relação que você mentalmente estabelece com o que faz, seu corpo responderá como a um espelho."


- Flávio Cantéli





Foto: Cerro Catedral, Agulha Campanille Sloveno, Bariloche.


Como e quando as competições de escalada entraram na sua vida ?


"Tudo começou bem na época em que ingressei na escalada. Um ano depois do meu primeiro contato, já veio o primeiro sul-americano no Círculo Militar. Tenho uma melhor resposta física na explosão o que me levou a dedicar mais aos boulders. Depois de umas 100 competições pelo Brasil e afora, com o ginásio eu não tinha mais tempo para treinar o necessário. Assim que não passei mais para as finais parei com as competições."


Como eram os campeonatos na época que você competia e qual você considera o mais importante ?


"Os muros eram mais precários e os regulamentos variavam muito de uma a outra competição. Inesquecível 1992, meu primeiro título brasileiro. Não só por estar com os melhores da época, mas também pela vibração da comunidade pelo feito."

Foto: FA de O Piano (V12). Ubatuboulder 2004 -SP.


Em quem você se inspirava no início e qual foi o escalador brasileiro que você viu escalar que considera estar entre os melhores?


"Sempre de olho no Júlio Nogueira (Baitacão), que era um cidadão instigado e que, como eu, não prestava atenção em limites ou barreiras. Quanto aos melhores é difícil nomear. No começo caí no meio da nata paranaense e isso acelerou minha ascensão. Bito Meyer, Chiquinho, Chicão, Júlio, Paulo Macaco e mais uma infinidade de pessoas raras."


Qual o seu local preferido para a escalada em rocha? Qual via ou boulder você gostaria de compartilhar ou que você considera uma grande conquista?


"Não diria local, mas em que rocha. Gosto muito do granito. Tenho alguns boulders que aprecio, principalmente os F.As (primeira ascensão). Futurista, Power Punk, Chave de Cocha, Jepeto, O piano... Minha escola é de grandes paredes e são as vias que mais me marcaram."

Foto: Papanduvas/Araçatuba 2004. Boulder Cooper feito (V8).


Sabemos que você construiu um ginásio de escalada e que hoje não está mais sob sua direção, mas o mesmo se mantém vivo sendo um dos ginásios mais modernos do Brasil, quando e como surgiu a ideia de construir um ginásio de escalada e por que o nome Campo Base?


"Indefinição de o que fazer para viver. Até que me toquei que deveria investir no que fazia bem e que me dava mais prazer. Eu e Adriana Schlenker resolvemos transformar a casa onde morávamos em um ginásio. O nome Campo Base é por se tratar de um lugar onde se abriga e se concentra para uma empreitada. O símbolo original foi desenhado por meu hábil irmão."


Falando sobre a escalada urbana, como e quando foi introduzida na sua vida, quais os locais que você frequentava?


"Muito novo eu já escalava com frequência, mas nem sabia como se chamava ou onde me levaria. Sempre morei no centro e além da praça 29, era uma brincadeira constante com meus amigos dar a volta na quadra apostando quem pisava menos ao chão. Na live On The Rocks, com Eliseu Frechou, conto bem essa história que pra mim foi mágico (Confira: http://eliseufrechou.com.br/on-the-rocks-com-flavio-canteli/)."

Foto: Gabriel Azevedo


Quem foram seus parceiros na escalada urbana?


"Todos os doentes pela escalada, constantemente estávamos juntos pelas ruas. Éramos muitos, não tinha ninguém fixo para a prática. Escalar com o maior número de pessoas só abre os horizontes."


Qual a maior barreira que vocês encontravam para poder praticar a escalada urbana?


"Opala preto quatro portas atrás de você (risos). Até hoje é taxado como vandalismo. Esses tempos atrás quase fui preso tentando o homem nu!"

Na escalada urbana tem algum local em específico que você passa em frente e sente muita vontade de escalar ou terminar um projeto que você deu início e ainda não completou ?


"Praça 19, o homem de granito. Gostaria de realizar nessa vida ainda."

Foto: Gabriel Azevedo


Qual o tipo de estrutura que você mais tem apego para realizar a escalada urbana?


"Os muros de pedras são muito generosos. Hospital de Clínicas por exemplo."

Qual a sua opinião sobre a escalada urbana, você acha que a mesma pode ajudar na democratização do esporte?


"A escalada urbana sim é um veículo da socialização, porém deve-se observar onde é coerente praticar. Aleatoriamente pode denegrir ao invés de divulgar."


Qual o recado que você deixa para quem está começando a escalar?


"Não se preocupe com o quanto você escala, mas sim o porque. Para o bom escalador, meia agarra basta."

Foto: Gabriel Azevedo


“A escalada é um esporte que oferece riscos, sendo uma atividade inerentemente perigosa por isso, orientamos a quem gostaria de praticar essa atividade, que procure estar com pessoas experientes para receber instruções de segurança. Uma escalada é segura quando realizada com procedimentos e técnicas adequadas. Para aqueles que possuem interesse em começar a praticar, sempre procurem ginásios de escalada indoor, clubes de montanhismo ou agências de turismo de aventura que tenham profissionais qualificados que disponibilizam cursos de escalada tanto indoor como para a prática na rocha, sendo possível utilizar as técnicas em espaços urbanos. Vale ressaltar que cada um é responsável por si mesmo e pelos seus parceiros.”

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