Entrevista com o escalador Bruno Magalhães do Grupo Rocha Escalada de Marília-SP.

Confira a entrevista com o escalador Bruno Magalhães, um dos idealizadores do Grupo Rocha Escalada da cidade de Marília-SP. Bruno nos contou um pouco sobre a escalada urbana, em rocha e ginásio que acontece em sua região além de compartilhar conosco como acontecem e quais são os objetivos das atividades do grupo juntamente com a comunidade local de escalada.


Fale um pouco sobre você e como a escalada foi introduzida na sua vida.


"Me chamo Bruno Magalhães, vulgo Suil tenho 40 anos de idade natural da cidade de Marília interior de São Paulo. Iniciei na escalada no início da década de 90, escalando por volta de 3 a 4 anos. parando com as atividades por longo tempo, voltando a escalar "viver" com o convite do amigo Felipe Dugaich em 2016. No início eu e meu primo Júlio (kalango) iniciamos na prática de rapel e em curto espaço de tempo conhecemos Paulo Borges da cidade de Brasília, cidadão de grande experiência e conhecimento em técnicas verticais e diversos esportes de aventura. A turma era pequena, composta por mim, Paulo, Valério, Fábio (Tatuí), Júlio (kalango), Edu (hidráulica paulista), Juliana (Juju) e Camila. Com a experiência de Paulo a turma passou a obter conhecimento e se aventurar na escalada e outras modalidades de aventura."

Aqui em Curitiba-PR, a escalada urbana surgiu nos anos 80 através da necessidade de escaladores realizarem seus treinos, pois não havia ginásios na época. Quando e como surgiu a escalada urbana em Marília?


"Em Marília o grupo rocha no início da década de 90 passou a praticar escalada esportiva na Serra de Avencas, não sendo os pioneiros do local. Há relatos de um escalador de outro país e de um brasileiro que abriu vias no local e na fazenda cascata. História interessante que estou no rastro, compartilharei a todos assim que concluir os estudos. Em curto espaço de tempo o grupo passou a evoluir e a querer mais e mais. Na cidade de Marília não era diferente do resto do país, não havia ginásio nem paredes para treinarmos, o que limitava o grupo a evoluir, estávamos no crux. Não me recordo de quem foi a ideia, somente recordo da receita que Paulo apresentou ao grupo de areia e massa plástica Iberê, dai em diante, começamos a fabricar nossas próprias agarras nas calçadas e colocá-las no paredão da Avenida das esmeraldas em frente a academia Polisport, se me recordo bem, a parede de concreto de 90 graus possuía 6 por 10 metros de altura. Foi uma época incrível, passamos a escalar no local frequentemente nos finais da tarde, as pessoas da cidade puderam ver a escalada, o paredão estava na principal e mais frequentada avenida de cooper de nossa cidade. Ali o grupo passou a dar informações e explicar as pessoas que a escalada existe, permitindo também que os mesmos tivessem a experiência de se equipar e subir sem custos o paredão. Com isso, o grupo passou a ter novos adeptos a prática da escalada. No paredão estávamos limitados novamente a treinar somente em 90 graus. Assim nasceu o segundo ponto de escalada da cidade de Marília, o pontilhão Bahia, com teto e saída de teto a ser escalados com equipamentos de segurança. O paredão da avenida das esmeraldas foi removido e suas agarras perdidas, restando somente o pontilhão da Bahia, estando em funcionamento e sendo mantido e cuidado por escaladores de Marília e região. As agarras fabricadas no passado permanecem no pontilhão até a presente data."

Além da escalada urbana, vocês praticam escalada em rocha e ginásios?


"Sim, praticamos a escalada em rocha na serra de Avencas, Analândia e na exuberante Mineirocks em mineiros do Tietê. Mineirocks é um paraíso para a prática aqui no interior, pico novo com 40 vias, em sua maioria vias de alto nível, paraíso criado e em desenvolvimento por Marcus (Curi), Du Santini, Romário, Leo, Batata, Charles, Arthur Teixeira e Suil. Contamos também com um humilde CT de escalada na cidade, hoje reduzido ao máximo devido a pandemia, com projetos para no menor espaço de tempo reabrir em forma de ginásio."


Observando o instagram @gruporochaescalada, notamos que vocês realizam uma limpeza no local onde vocês praticam a escalada urbana, tirando os lixos e entulhos, essa prática é rotineira?


"Acredito que toda essa energia e filosofia são sementes plantadas no passado desde o início todo o grupo trabalhava unido, com vaquinhas para comprar materiais para fabricar Agarras, parafusos, chapas etc. Com isso todos participam diretamente tanto em questões financeiras quanto em por em prática e a mão na massa. Em 2018 vivíamos uma realidade de escuridão e muita sujeira depositada no local, e toda essa energia se aflorou novamente, até a presente data, conseguimos juntos a iluminação do local pedido feito a prefeitura da cidade, pintamos o pontilhão sem descaracterizar as cores originais do local que escalamos e quando necessário, nos reunimos para varrer, carpir mantendo o local mais adequado a nós que praticamos esporte no local e para aqueles que por ali passam. Assim como no passado não atribuímos a um ou outro como idealizador de melhorias do local e sim que todos são responsáveis e colaboradores. O resultado são horas de trabalho que fazem a diferença para o esporte e para a cidade em que vivemos."

Foto: Serra de Avencas.


Sabemos que a escalada não é um esporte muito acessível, sendo assim um esporte elitizado, mas em contrapartida em vários lugares do mundo e até mesmo do Brasil muitas ideias como a de vocês vem surgindo para que escaladores possam realizar seus treinos e até mesmo apresentar a escalada para um público que talvez nunca fosse atingido. O que vocês almejam alcançar e qual o objetivo principal desse projeto?


"Concordo, os equipamentos são caros, já é difícil para um leigo ter acesso a escalada e de imediato gastar com equipamentos e cursos. Venho da geração Kichute e apreendi a utilizar o mínimo de equipamentos possíveis para praticar o esporte, faço uso e recomendo a todos a utilização de equipamentos nacionais, podendo citar como exemplo a marca conquista, empresa que assim como nós, vem evoluindo a todo instante com excelentes equipamentos e de menor custo que os equipamentos importados. O pontilhão em si não possui um projeto com objetivo a ser alcançado, e sim busca acolher a todos que venha se interessar a conhecer o esporte, pude ver isso no passado e ter o prazer em ver as novas gerações que aqui estão acolhendo e propagando a escalada para os que a desconhecem. No pontilhão da Bahia e na serra de avencas fazemos uso de equipamentos de segurança, com doações de escaladores nos mantemos ativos, no ano passado o grupo ganhou uma corda dinâmica do kalango (já descartada), uma corda do Fabinho Tatuí, duas sapatas do amigo Batata e uma corda estática do amigo Wainer, corda essa que está sendo utilizada na abertura e manutenção de vias em Mineirocks. Geralmente quando os amigos se reúnem para escalar, levamos Junto algum interessado para sentir de perto a energia e o poder da Rocha."


Qual a faixa etária dos praticantes e qual a relação dos praticantes com a escalada em relação a conhecimentos técnicos?


"Tanto no CT quanto no grupo a faixa etária é de 20 a 45 anos de idade que são mais assíduos, mas temos algumas crianças que são nossos filhos e tem nos acompanhado também o qual vem nascendo uma nova geração. No grupo, adquirimos conhecimentos técnicos através de troca de experiência e treino."

Vocês já foram abordados pela polícia ou guardas municipais para que parassem com a prática?


"Sim, tanto no passado quanto no presente. A polícia militar ao ver um grupo de jovens reunidos debaixo de um pontilhão faz o seu trabalho em verificar o que está ocorrendo no local, e ao se deparar com um grupo ordenado, que os mesmos estão praticando esportes e não vandalismo ficam admirados com a prática esportiva no local. Com a depredação do local de escalada a próxima ação do grupo será pedir maior policiamento no local para que possamos também levar nossos filhos a praticarem o esporte geralmente realizado na período da noite."


Já houve momentos em que pessoas parassem para observar e pedissem para escalar?


"No passado no paredão da avenida das esmeraldas, muitas crianças, adultos e idosos faziam sua pausa na caminhada em frente a parede para observar saber mais e dar gargalhadas com as vacas (tombo, quedas, cair). No pontilhão não temos as pessoas andando somente carros, e na correria do dia a escalada passa despercebida. Sim pessoas se aproximam, e quando ocorre, logo alguém do grupo começa a bater papo e informar sobre a escalada e a pessoa geralmente tem a primeira experiência."

Vocês tem mais pontos de escalada espalhados pela cidade ou se concentram somente em um local?


"Urbano somente o pontilhão da Bahia, no beco Ipiranga, aberto a todos, e o CT particular que carinhosamente e com muito orgulho o batizei de grupo rocha."


Países como Itália, França, Alemanha, Espanha e outros possuem a tradição de apoiar espaços públicos de escalada e até mesmo realizar festivais de escalada urbana. O que vocês acham da ideia de ser retomada a idealização de campeonatos ou até mesmo festivais como acontecia em Curitiba nos anos 90?


"Por incrível que pareça na data anterior a entrevista, liguei e conversei pedindo experiência e opinião do sapo agarra quanto a isso. Marília não possui ginásio para um festival fechado, realizar um festival aberto na cidade de Marília seria algo fantástico! Bora se unir, trabalhar essa ideia e tocar pra Riba?"

Nós da Escalada Urbana CWB somos totalmente contra qualquer manifestação realizada através da pichação, para quem não conhece a escalada e vê alguém escalando um viaduto, monumento, muro e em outros locais, chegam a confundir escaladores com pichadores o que você tem a dizer a respeito da pichação?


"Marília é uma cidade pequena, ao qual não aconteceu de sermos confundidos com a prática de pichação, a experiência que tenho a relatar quanto a isso, é de que após a pintura realizada no pontilhão com as mesmas cores originais que ali estavam, permanecem por dois anos intactas, não houve pichação no local que escalamos."


A escalada terá sua primeira participação nos jogos olímpicos, e a mesma está em uma crescente constante, vocês acham que isso é somente uma febre ou que realmente cada vez mais pessoas vão procurar esse esporte?


"Fiquei muito feliz com a notícia, a escalada terá maior visibilidade em nosso país. Creio que cada vez mais as pessoas irão buscar e praticar o esporte e será uma mistura total em minha opinião. O Brasil vai crescer muito na escalada nós próximos anos. Temos filhos de escaladores que desde cedo estão indo pra rocha e treinando com os pais. Acredito que essa mulecada vai trazer grandes alegrias para o país e para a família climb."

Na sua opinião, o que a escalada urbana pode proporcionar na vida das pessoas e no local da prática?


"Qualidade de vida, os benefícios que a escalada proporciona ao corpo e mente são incríveis, não sendo diferente ao local que é praticada. Em espaço urbano grupos se reúnem trocam experiências realizam mutirão para organizar o local o transformando por completo. Com o ambiente limpo e ordenado todos evoluem, tanto na escalada quanto pessoa."


Qual o seu conselho para quem está começando na escalada seja ela indoor, na rocha ou até mesmo na escalada urbana?


"Sejam bem vindos a escalar, com humildade, sabedoria e consciência. Em pouco tempo terá conhecimento para seguir sua caminhada e projetos. Jamais realize qualquer procedimento sem ter conhecimento."

Siga o Instagram do grupo Rocha Escalada: @gruporochaescalada.