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Entrevista com Gustavo Santos - Escalador Paratleta.

Em 28 de julho de 1948, o neurologista alemão Ludwig Guttmann, organizou o primeiro evento esportivo para atletas provenientes de um plano de reabilitação de soldados mutilados e paralíticos que serviram a Segunda Guerra Mundial. Em 1952 os jogos começaram a ser internacionais e a partir de 1964 as edições dos eventos começaram a ser conhecidas como Paraolimpíadas. No Brasil são diversos os atletas paraolímpicos que são inspirações mundiais, tendo como destaque o nadador Daniel Dias, maior medalhista brasileiro em Paraolimpíadas.


O escalador paratleta Gustavo Santos, medalhista de prata por duas vezes em campeonatos brasileiros de Paraclimbing, nos concedeu uma entrevista muito interessante sobre sua trajetória na escalada, visão sobre a escalada urbana, desafios relacionados ao Paraclimbing brasileiro e seus objetivos no esporte. Confira na íntegra nosso bate-papo:


- Falando um pouco sobre você, quem é Gustavo Santos, onde nasceu, formação, família e o que faz atualmente?


"Nasci em São Paulo, completei 22 anos neste mês de julho, minha família é toda de lá. Trabalho como programador em uma empresa de tecnologia e iniciei neste ano bacharelado em Ciência da Computação. Além de escalar, pratico muito o ciclismo."


- Como foi que você conheceu a escalada e onde deu seus primeiros passos?


"Sempre gostei de estar na natureza e acabei conhecendo a escalada esportiva pelo Instagram. Não sabia que escalada era um esporte nem que existiam ginásios em Curitiba. Logo de cara fiquei interessado e pesquisei no Google, meu primeiro contato com a escalada foi no ginásio Campo Base, mais ou menos na metade de 2018. Nos meses seguintes fui mais duas ou 3 vezes na Campo. Um tempo depois acabei descobrindo um muro de escalada público perto da minha casa. Na segunda vez que fui escalar no muro público do Bairro Novo acabei conhecendo o Fabio que me convidou para escalar no Morro do Anhangava no final de semana e esse foi o início da minha paixão pela escalada."

Gustavo Santos escalando no ginásio Campo Base em Curitiba-PR. Foto: Acervo pessoal.


- Houve algum tipo de barreira quando você deu início à escalada?


"A princípio surgiu uma dúvida se deveria escalar com ou sem a prótese, utiliza-la com uma sapatilha comum não é muito efetivo pois o pé não foi feito para este uso e traz pouca ou nenhuma firmeza. Não usar a prótese me da a vantagem de carregar menos peso (apenas 2kg)."


- Como paratleta qual a maior dificuldade que você encontra na escalada de competição brasileira?


"O núcleo de paratletas na escalada brasileira é extremamente pequeno, o último campeonato nacional contou com apenas 4 atletas. Isso faz com que as competições da nossa categoria tenham menos visibilidade e menos investimento. É comum que as vias do paraclimbing sejam vias adaptadas das outras categorias, o que pode gerar uma vantagem ou desvantagem para o competidor. Isto não é uma crítica às competições, é totalmente coerente a reutilização das vias, meu ponto é que precisamos de mais escaladores para promover competições maiores."

Gustavo Santos escalando no ginásio Via Aventura durante campeonato de dificuldade. Foto: Nina Brandt Meister.


- Você recebe algum tipo de apoio?


"No início de 2019 comecei a praticar mais a escalada, mas sem a intenção de competir, então recebi o convite da Campo Base para treinar no espaço do ginásio e representa-los nas competições estaduais e nacionais. Também recebi treinamento do Thomas (criador da Quatro Ventos e Co-fundador do estúdio Poleclimb). Esses apoios foram fundamentais para o meu desenvolvimento como atleta e no decorrer de 2019 participei de 3 campeonatos estaduais e 2 campeonatos nacionais (um deles em São Paulo). Quando conheci a escalada em 2018 eu nem imaginava que terminaria 2019 com duas medalhas de prata de campeonatos brasileiros (o fato de que na minha categoria só tinham 2 atletas não é muito importante haha)."


- Além de competir e treinar em ginásios, você já escalou em rocha?


"Desde o meu primeiro contato com a escalada fui apenas 5 ou 6 vezes pra rocha, não por falta de oportunidade. Eu escalo principalmente em ginásios, em parte por falta de tempo, mas principalmente por conta das limitações mecânicas da minha prótese, normalmente escalar na rocha significa fazer uma trilha de aproximação ou então a subida de um morro e preciso me preocupar com o desgaste das peças da minha prótese. Quebrar uma peça importante como um pé ou joelho é uma grande dor de cabeça quando se está em um local isolado, digo por experiência própria. Não me entenda mal, o problema não é o esforço físico e sim a minha prótese que não aguenta meu ritmo. Escalei algumas vezes no morro do Anhangava e uma vez em São Luís do Purunã."

Gustavo Santos escalando a via José Peón no Morro do Anhangava. Foto: Acervo Pessoal.


- Qual a sua relação com a escalada urbana e como tudo começou?


"A escalada urbana é uma ótima forma de driblar meu obstáculo da escalada em rocha, a aproximação pode ser feita de bicicleta, que é meu veículo de locomoção e uma outra paixão minha. Comecei escalando em um viaduto perto da minha casa. Os viadutos são feitos com grandes blocos de concreto que por não serem 100% idênticos criam ótimas vias de escalada. Depois disso encontrei algumas vias ainda mais perto de casa, nos muros do meu condomínio especificamente."


- Quem são seus parceiros na escalada urbana?


"Além do Fabio que já citei antes, acabei escalando com um conhecido de infância, o Ebraim, que não via há anos, uma feliz coincidência, e também com Roniel que registrou o momento. Conheço vários outros escaladores que também se empolgaram com a ideia da escalada urbana, que infelizmente no momento ainda não foi possível escalar junto."

Gustavo Santos escalando no Viaduto do Xaxim em Curitiba-PR. Foto: Acervo Pessoal.


- Em quem você se inspira para seguir adiante na escalada?


"A minha inspiração normalmente vem de pessoas com quem eu convivo mais tempo, amigos escaladores que são tão apaixonados pela escalada como eu, meu treinador Thomas com certeza é uma enorme fonte de inspiração, um dos meus escaladores favoritos. Uma figura internacional que me inspira muito é a paratleta norte americana Maureen Beck, que além de competir também escala em rocha e no gelo."


- Qual o seu maior objetivo com a escalada?


"Tenho dois objetivos que para mim tem a mesma importância. Um deles é me desenvolver como um escalador, ser capaz de escalar vias de alta dificuldade. O outro é mostrar para outras pessoas com deficiência que elas também podem escalar vias de alta dificuldade."

Gustavo Santos escalando no Viaduto do Xaxim em Curitiba-PR. Foto: Roniel Fonseca.


- Qual a sua opinião sobre a escalada urbana, você acha que a mesma pode ajudar na democratização do esporte?


"Acredito que um dos motivos para a escalada ainda não ser um dos grandes esportes do nosso país é não ser conhecido pelo grande público, a escalada urbana tem o potencial de trazer essa visibilidade ao esporte e torna-lo mais acessível."


- Qual o recado que você deixa para quem está começando a escalar? Principalmente para pessoas com deficiências.


"Sendo PCD ou não, o início da escalada é sempre difícil, para uns mais, para outros menos. O que temos que manter em mente é que a escalada é um esporte de adaptação, cada corpo tem uma forma única e uma via de escalada que é fácil para quem é baixo pode ser difícil para quem é alto, e vice-versa. Falando especificamente aos PCDs, além das características gerais de cada corpo, talvez o seu tenha uma diferença extra, no meu caso uma perna, e isso é facilmente superado com esforço e criatividade. Somos especialistas em adaptabilidade e essa característica é fundamental na escalada. Mantenha o foco nos seus objetivos e se esforce mais! try harder!"

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A equipe Escalada Urbana CWB agradece a contribuição do Gustavo para o nosso Blog e por ser inspiração de vida para todos nós! Bons ventos, piá!


Fonte: https://www.camarainclusao.com.br/noticias/jogos-paraolimpicos-tiveram-inicio-em-1948-partir-de-iniciativa-de-neurologista-alemao/

“A escalada é um esporte que oferece riscos, sendo uma atividade inerentemente perigosa por isso, orientamos a quem gostaria de praticar essa atividade, que procure estar com pessoas experientes para receber instruções de segurança. Uma escalada é segura quando realizada com procedimentos e técnicas adequadas. Para aqueles que possuem interesse em começar a praticar, sempre procurem ginásios de escalada indoor, clubes de montanhismo ou agências de turismo de aventura que tenham profissionais qualificados que disponibilizam cursos de escalada tanto indoor como para a prática na rocha, sendo possível utilizar as técnicas em espaços urbanos. Vale ressaltar que cada um é responsável por si mesmo e pelos seus parceiros.”

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