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Entrevista com a Profissional de Educação Física Daiane Luise.

Confira nossa entrevista com Daiane Luise, profissional de educação física, montanhista e organizadora do I Mulheres Outdoor (Instagram: @mulheresoutdoor), onde ela nos conta um pouco sobre sua trajetória na escalada, competições, profissão e o que pensa em relação à escalada urbana e o futuro da escalada brasileira, além disso desfrute das dicas para quem está iniciando no esporte e quem busca aprimorar suas técnicas na escalada de forma saudável e segura.


Quem é Daiane Luise Souza, onde nasceu e o que faz atualmente?

"Apaixonada por esporte e natureza, nasci em Rio Negro, interior do Paraná. Sou formada em Educação Física pela UFPR a 18 anos, me especializei na área esportes outdoor. Montanhismo, escalada, corrida são as atividades que hoje eu mais faço e trabalho. Atuo como personal trainer na área de condicionamento físico e esportes outdoor e sou professora de escalada na Academia UBT escalada."


Fale um pouco sobre seu amor pelas montanhas, como foi o seu início no montanhismo e escalada? Qual é o seu lugar favorito para praticar?

"Fui pela primeira vez na montanha aos 16, com amigos, vizinhos de rua pegamos chuva no Anhangava, achei o máximo aquela aventura e nunca mais parei...Foi paixão ao primeiro perrengue! Fui aprendendo mais sobre montanhismo, conhecendo pessoas que praticavam e através delas também comecei a praticar escalada. Na época (1994) existiam alguns muros bem caseiros, a academia de ginastica olímpica Marco Matta construiu um muro bacana que mais tarde veio a ser o muro de várias competições. Mas as escaladas nos morros e montanhas da região com os amigos que foi realmente a minha escola. As competições estavam se desenvolvendo e como já tinha sido atleta de competição na ginástica rítmica, me empolguei em competir e comecei a praticar escalada esportiva indoor em meados de 1997. No início de 1998 fiz o curso de escalada em rocha e desde então comecei a praticar mais escalada esportiva em rocha, escalada indoor e também continuei subindo muitas montanhas com regularidade. Meu meio de transporte sempre foi a bicicleta desde meus 15 anos então fui acumulando paixões no esporte. Muitas vezes ia de ônibus sozinha fim de semana para Anhangava, Marumbi, Pico Paraná entre outras da Serra. Nas competições, em 2000 fui campeã paranaense de escalada esportiva indoor. Mas em julho de 2001 sofri um acidente que me tirou do mundo esportivo por 2 anos. Então conheci a corrida de aventura. Me dediquei por alguns anos a ela e voltei em 2006 mais frequência novamente. "

Daiane escalando linha de Boulder no Morro Araçatuba. Foto: Acervo pessoal.


Sabemos que você pratica vários esportes, quais são eles? Entre eles há algum que você considera seu preferido?

"Hoje eu pedalo como meio de transporte, e saio fazer trilhas e estradões quando posso. Algumas vezes por ano faço provas de corrida de aventura e corrida em trilha. Pratico escalada indoor e escalada na rocha sempre que possível. Não participo mais de tantas competições, por que tenho que dividir os custos da vida outdoor...Desafios de quando a gente gosta de fazer várias coisas...falta dinheiro e inclusive horas na vida. Tenho fases e escolho determinadas coisas para focar, se é uma prova de corrida, ou uma expedição de montanhismo e escalada. Acho que o montanhismo é minha primeira paixão. Seja andando ou correndo eu amo estar no meio do mato e de preferência na montanha!"


Conte-nos um pouco sobre sua experiência em competições de escalada.

"Comecei a escalar em 1996, em 1997 foi meu primeiro campeonato. Cai logo no começo de uma travessia e sai chorando. Foi no mínimo frustrante. Mas continuei treinando. Éramos todas e todos uma comunidade motivada e ainda pequena, em crescimento tanto em Curitiba como no Brasil e todos ajudavam a fortalecer o esporte e não desistir. Amava treinar, a energia dos locais de treinos e por fazer faculdade de educação física, eu adorava estudar sobre treinamento e ver a evolução e competir. Academia foram surgindo e as competições ganhando mais espaços. Em 2000 consegui apoio da marca Bull Terrier que estava entrando no mercado outdoor, e nos proporcionou dinheiro para pagar inscrições e um pouco dos custos das viagens pra competir quando íamos para os campeonatos brasileiros. Grandes eventos foram crescendo, X-games no Brasil, Z- games, Rope show no Rio foi na época o muro com mais metros escaláveis um campeonato brasileiro que fiquei em 5 lugar. Academias da época grandes que surgiram foi a Jaguati em Curitiba e Casa de Pedra em São Paulo, locais clássicos das competições nessa época. Parei em 2001, quando ganhei o campeonato paranaense, pois sofri um acidente e parei por 4 anos."

Daiane durante campeonato de escalada. Foto: Acervo pessoal.


Sobre suas viagens fora do Brasil, para onde viajou? Quais experiências você obteve e quais delas foi a mais marcante?

"Comecei a viajar para escalar fora do Brasil em 2003. A primeira viagem foi ver as montanhas da Argentina. Elas fazem seus olhos crescerem e querer ir logo ao local mais próximo para subir montanhas e escalar e ver neve! Competi corrida de aventura lá e fiz algumas montanhas. Já passei pela Argentina, Chile, Estados Unidos, Canadá, França, Itália, Suíça, África do Sul, Tailândia subi montanhas, escalei boulders, esportiva e tradicional de um dia. Ainda não tive oportunidade de fazer big wall. Um dia quem sabe! Para mim os Alpes na França, foi mais marcante pois aprendi muito sobre escalada alpina, e esse era um grande sonho. Escalar o Mont Blanc pelo lado italiano, uma das rotas mais duras (Brouillard Ridge com o amigo Waldemar Niclewicz) e ter tentado o Aconcágua em 2013 sem mulas, foi bem marcante. "


Fale um pouco sobre a Daiane fotógrafa, onde e como surgiu essa paixão pela fotografia?

"Na realidade não me considero fotógrafa, mas sim sou apaixonada por fotografias.... Tenho muito para aprender. Mas eu amo muito imagens. E gosto de criar cenas e imaginar como passamos ideias e sentimentos através delas. Eu sempre quando fotografo tento imaginar isso. O que vai sentir quando olhar a foto. Tenho amigas fotógrafas e aprendo muito sempre com elas! Isso surgiu quando pelas primeiras vezes fui sozinha para montanha. E tirava muitas fotos...e queria cada vez mais deixar elas do jeito que eu via. Mudava luz ângulo na hora até ficar o mais parecido com o que via. E assim fui querendo criar mais e mostrar pra quem não pode ir onde eu fui ( pedido da mãe por exemplo) poder ver o que eu via da melhor maneira possível!"

Daiane no cume do Mont Blanc. Foto: Acervo pessoal.


Estamos passando por um momento difícil em razão da pandemia e esse foi o motivo pelo qual nós da Escalada Urbana CWB resgatamos a ideia de escalar nos centros urbanos, qual a sua opinião a respeito dos fechamentos dos parques e dos locais de escalada?

"Concordei plenamente com o fechamento pois acredito que não era apenas pela aglomeração de pessoas no local, o que também é o problema. Mas as outras infinitas possibilidades do que pode acontecer quanto mais saímos de casa no período pedido para isolamento. Um acidente na estrada, um pé quebrado, gente perdida na trilha, coisas que te levariam ao hospital sem necessidade, sobrecarregando um sistema já cheio. Um contexto maior, envolve ver o lado dos profissionais da saúde com diminuição do número de contaminação, afinal é fato que com essa aglomeração vai acontecer mais contaminação. A falta de recursos das áreas rurais com menos hospitais. Temos que ver que até mesmo no trajeto até o local, arriscamos pessoas e nós mesmo, nos postos que paramos para abastecer, na panificadora que parou para comer. No banheiro do caminho que você parou. Então analisando o contexto geral, não é só na trilha. Fora que junto com isso veio a estiagem, e sem dúvida ajudamos a natureza não indo até ela por um tempo. Resumindo ela estará ainda lá para a gente. Só esperar um pouco."


Você sendo uma grande esportista, como tem realizado seus treinamentos?

"Em casa, com uma boa dose de motivação, pelas ruas do bairro, pelos pequenos morros dentro da cidade ainda abertos. Usando horários alternativos, madrugando muito para evitar pessoas. Nada que um banquinho com uma mochila nas costas não ajude as pernas. E a bicicleta, que me ajuda muito como meio de transporte. Não é como antes, mas é um processo de aprendizado e adaptação. "

Daiane durante escalada esportiva. Foto: Acervo pessoal.


Sobre a escalada Urbana, onde e quando foi seu primeiro contato e qual era o motivo que levava você a praticar a escalada nos centros urbanos no final dos anos 90?

"Assistir as competições de escalada do Hotel Paraná Suíte abriu os olhos para enxergar escalada em vários lugres dentro da cidade. Assim fomos brincar nas paredes do Hospital das clinicas...até nos proibirem. Depois foi a vez da praça 29 de março ...até nos proibirem... e assim foi! Paredes de uma mansão perto do meu trabalho (ainda não tinham tantas câmeras de controle) era possível se arriscar. Era uma diversão extra apenas. Mas não foi um movimento tão forte como o que vocês estão criando. E isso é lindo. "


Nessa época havia mais mulheres que realizavam a escalada urbana?

"Não muitas, lembro de ir com meninos brincar, com meu namorado da época que era escalador. Não era um movimento tão focado e divulgado. Não tínhamos internet, então talvez se tivesse, teria crescido muito mais. Era época de abrir vias na rocha e ir para o morro mesmo, Anhangava e Canal eram os queridinhos da época."

O que, em sua opinião, a escalada pode proporcionar na vida das pessoas?

"Primeiramente como profissional da área de educação física, pra mim a escalada é um esporte muito completo, pois usa o corpo e todo e também relaxa sua mente, sendo uma excelente atividade anti–stress. Sendo assim, nos dias atuais, é uma atividade física ótima se pensarmos no ponto emocional, afinal que m não tem stress na vida. No momento que está a escalar, você não consegue pensar em nada mais."

Daiane durante escalada na Africa do Sul. Foto: Acervo pessoal.


Sabemos que a escalada é inerentemente um esporte arriscado, mas se for praticado com as técnicas e equipamentos corretos se torna um esporte muito seguro, existe uma idade certa para começar a prática da escalada?

"Acredito que escalar, subir usando braços e mãos é quase um movimento natural do ser humano. Quando crianças brincamos facilmente de subir nas coisas em casa, e hoje vemos crianças de 2 anos brincando de subir em mini paredes de escalada. No caso do uso de equipamentos, acredito que crianças que já tem boa noção de equilíbrio corporal, com aproximadamente 3 a 5 anos elas já são capazes de curtir muito subir paredes com segurança, em um top rope ou Boulder, mesmo que na natureza ou academia. Vi muito isso na França e sim funciona por lá."


Se nesse ano houvesse as olimpíadas no Japão a modalidade de escalada estaria presente. Sabendo que não teremos escaladores brasileiros na próxima edição, como podemos formar atletas de ponta na escalada como alguns países da Ásia e Europa para as próximas olimpíadas?

"Como todo esporte um trabalho de base com crianças é necessário. Criar escolinhas, aulas e ir descobrindo talentos esportivos. Precisamos focar em projetos de trabalho de base que ainda não existe tão bom aqui. Precisamos de mais tempo e dedicação ao esporte dos escaladores de hoje para motivar os futuros escaladores. A população em geral, as escolas, precisam conhecer mais do esporte também. "


Daiane em ginásio de escalada indoor. Foto: Acervo pessoal.


Voltando a falar de escalada urbana, em alguns países da Europa a prática é bem difundida, o que você acha que falta para que o Brasil venha desenvolver essa prática não somente nos equipamentos urbanos, mas no geral até mesmo em academias de escalada?

"Acho que falta grupos de escaladores praticantes mesmo. Grupos que queiram divulgar e ensinar que pode ser divertido e seguro. Mostrar as possibilidades e difundir mais a ideia das atividades de escalada urbana. A segurança que pode ter em praticar, pois como não é tão difundido no Brasil, pode se tornar algo proibido em vários locais por medo e falta de conhecimento. Algumas academias hoje começaram a ter o parkour, o que já começa a criar a conexão da rua com as academias. O futuro terá mais opções eu acredito! "


O que você espera para o futuro da escalada no Brasil?

"Espero termos um número cada vez maior de praticantes, seja como atividade física ou como atividade de competição, por que ambas seguem na mesma direção, o prazer de praticar uma atividade corporal e beneficiar sua saúde com isso mental e física."


Para quem você indica a escalada urbana?

"Quem já tem um pouco de conhecimento técnico, vai conseguir curtir mais e se divertir. Quando tem pouco tempo e não consegue se encaixar em horários e locais das academias, ou quando não pode ir para rocha, e quer fazer uma escalada dentro da cidade tem uma boa opção! Consegue ter o prazer de escalar, uma atividade que pode ser divertida com amigos em uma parede ou praça qualquer!"

Daiane no cume do Vallecitos. Foto: Acervo pessoal.


Sabemos que você está envolvida em alguns projetos gostaríamos você falasse um pouco deles:

"No começo do ano voltei de uma experiência longa que decidi fazer, um tempo vivendo na França e no Canadá aprendendo mais e mais, experimentando a vida lá fora, passando perrengue, mas também me divertindo e aprendendo muito. Aprendi participando de eventos lá fora, que assim como acontece muito lá, eu precisava fazer algo diferente. E veio a vontade de realizar mais eventos só para mulheres aqui. Eventos para divertir e dividir mais conhecimento e dar força para as mulheres do mundo outdoor do meu local, da minha comunidade. Usar minha experiência em prol de algo maior. Me reuni com mais mulheres lindas que compartilham a mesma ideia e fizemos acontecer o I Mulheres Outdoor, no dia das mulheres em 2020. Yoga, clinicas esportivas de corrida, caminhada, escalada, mountain bike, com 120 mulheres reunidas com muita energia! Através desse evento surgiu a ideia de continuar a mover esse nome, produzindo eventos para mulheres e cursos e entre outras mil ideias bloqueadas pelo Corona vírus. Mas não desistimos. Pausa para o mundo. Espero poder continuar o projeto assim que que tudo melhorar. Por enquanto somos um canal de instagram para que quiser entrar e aguardar nossas atividades assim que tudo melhorar! Por enquanto produzimos alguns materiais para divulgar nossos esportes, tirar dúvidas e motivar as mulheres a se divertir na natureza!".


Como uma profissional da área de educação física, qual seriam suas dicas para quem está iniciando na escalada?

"Diria para ter paciência no processo de aprendizagem para não se machucar. É muito comum ver pessoas iniciantes lesionando ombros, dedos, punho, cotovelo por que se empolgam e escalam demais, não dão o correto intervalo de recuperação. Sendo assim, respeite o corpo. Descanso. A escalada requer mais tempo para condicionar os ligamentos e tendões sem se machucar. Uma musculatura que geralmente é menos trabalhada no dia a dia dos esportes mais comuns. Dedos e mão precisam ganhar músculos também! Aprenda mais sobre seu corpo, os músculos que precisa treinar mais para equilibrar tudo que precisa na escalada! Trabalhe sua mobilidade e flexibilidade, ela vai te ajudar muito nesse esporte!"


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A equipe Escalada Urbana CWB agradece imensamente a contribuição da Daiane Luise para nosso blog, gratidão e bons ventos!

“A escalada é um esporte que oferece riscos, sendo uma atividade inerentemente perigosa por isso, orientamos a quem gostaria de praticar essa atividade, que procure estar com pessoas experientes para receber instruções de segurança. Uma escalada é segura quando realizada com procedimentos e técnicas adequadas. Para aqueles que possuem interesse em começar a praticar, sempre procurem ginásios de escalada indoor, clubes de montanhismo ou agências de turismo de aventura que tenham profissionais qualificados que disponibilizam cursos de escalada tanto indoor como para a prática na rocha, sendo possível utilizar as técnicas em espaços urbanos. Vale ressaltar que cada um é responsável por si mesmo e pelos seus parceiros.”

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